O que você perde ou ganha com o governo Michel Temer?




Ainda que os últimos meses tenham mostrado que qualquer expectativa sobre a política e a economia brasileira pode estar redondamente enganada, também é fato que, diante de todas as turbulências, tentar antecipar os próximos movimentos é importante para ganhar dinheiro, ou evitar prejuízos.

Economistas e profissionais do mercado financeiro analisam quais são as principais expectativas para a economia com o governo de Michel Temer e como elas afetam você, ou mais especificamente o seu bolso. 

Confira.

1) Dólar

Como seu bolso pode ganhar: o dólar pode cair com o maior otimismo em relação à economia.

Como seu bolso pode perder: o dólar pode ficar estável ou subir se as medidas econômicas de Temer decepcionarem.

Por mais que não se saiba qual será o desempenho da economia na gestão Temer, as variáveis financeiras, mais influenciadas pelo humor do mercado, já apresentam avanços há algum tempo, diz André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. “É da natureza do mercado antecipar movimentos, por isso o dólar já subiu neste ano. Mas entre os países emergentes, o real é a moeda que mais subiu, então não deve subir muito mais.”


Para conter a disparada do dólar em 2015, o governo realizou operações de swap cambial reverso que, de forma resumida, equivaleram à venda de dólares. Assim, segundo Perfeito, o governo deve aproveitar a euforia com a economia - que tende a conter a alta do dólar -, para desfazer suas posições de swap. “Isso contribui para reduzir a liquidez do dólar no mercado, impedindo que a moeda caia fortemente”, diz.

Álvaro Bandeira, economista-chefe do Home Broker Modalmais, ressalta, porém, que o governo já desfez boa parte das operações de swap e pode permitir que o dólar ceda um pouco mais. “O governo estava trabalhando com uma faixa cambial entre 3,50 e 3,60 reais sem intervir. Agora acho que ele pode até deixar o dólar flutuar até uns 3,20 reais, mas não mais que isso para não prejudicar a exportação”, diz.

No entanto, Bandeira ressalta que a queda do dólar depende de como as medidas do governo Temer serão assimiladas pelo mercado. Caso os projetos do novo governo sejam mal digeridos, a moeda pode se manter estável, ou até subir.

2) Juros

Como seu bolso pode ganhar: juros podem cair, barateando empréstimos, incentivando a economia e gerando empregos

Como seu bolso pode perder: juros de investimentos de renda fixa devem cair

No documento Uma Ponte para o Futuro, que traça as diretrizes do programa econômico do PMDB, o partido menciona a seguinte frase: “Juros tão altos diminuem nossa capacidade de crescer”. Portanto, a expectativa para o governo Temer é de corte nos juros.

A taxa de juros básica da economia, Selic, é o principal instrumento usado pelo governo para conter a inflação. Ela pode ser entendida como o preço do dinheiro. Assim, quanto mais alta ela é, menos créditos os brasileiros tomam, reduzindo a demanda e, consequentemente, o aumento de preços. E quanto mais baixa ela é, mais farto é o crédito, a demanda e maior é a pressão sobre a inflação.

Como parte dos ajustes econômicos já foi feita durante o governo Dilma – com a contenção dos salários e a liberação de preços anteriormente administrados, como da gasolina e energia – a inflação está arrefecendo e abrindo espaço para o corte de juros. Segundo o mais recente Boletim Focus, do Banco Central, a previsão é que a Selic passe dos atuais 14,25% ao ano para 13% ao ano até o fim de 2016.

Assim, as taxas dos empréstimos devem ficar mais baratas, mas, da mesma forma, os juros pagos em investimentos de renda fixa devem ser reduzidos. Por outro lado, quando há perspectiva de queda dos juros, os investimentos de renda fixa prefixados tendem a se valorizar – já que suas taxas de compra podem ser superiores ao novo e menor patamar da taxa Selic e eles se tornam vantajosos.

Se de um lado os títulos prefixados à venda já incorporaram a expectativa de uma Selic menor e já estão com juros menores, reduzindo as oportunidades de ganhos, por outro, se o governo Temer for bem-sucedido, a Selic podem cair ainda mais, gerando ganhos para quem comprar títulos prefixados agora, diz Perfeito. “Caso a inflação seja controlada, o governo pode incentivar a economia via queda de juros.”

3) Emprego

Como seu bolso pode ganhar: se o governo Temer agradar o mercado, a retomada da confiança deve conter demissões e incentivar investimentos

Como seu bolso pode perder: projetos de Temer podem não convencer o mercado, encerrando a “lua de mel” do impeachment e mantendo o desemprego em alta

Se as medidas apresentadas por Michel Temer seguirem de fato o tom do documento Uma Ponte para o Futuro, a expectativa é que o mercado continue vendo com otimismo o governo do peemedebista.

Assim, conforme pontua Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, se os empresários estavam demitindo por não ver luz no fim do túnel, agora eles podem segurar demissões por acreditar que o cenário irá melhorar. “Demitir no Brasil é muito caro e as empresas já estão demitindo chefes de família, profissionais que elas treinaram, o que sai ainda mais caro. Então, ao menor sinal de melhorias, elas devem segurar demissões.”

Com a retomada da confiança e a queda dos juros, o empresariado também deve se sentir mais motivado a investir. “Ao destravar o crédito, com a redução dos juros, o primeiro efeito é o estanque da quebradeira. Os empresários estão com a mão no gatilho, só aguardando medidas que se mostrem efetivas. Se houver de fato ajustes e os juros caírem, os investimentos em infraestrutura e do setor produtivo retornam”, diz Zeina.

No entanto, conforme lembra André Perfeito, a “lua de mel” que o mercado deve viver com a entrada de Temer pode acabar logo e a confiança se esvair se seus projetos econômicos não forem convincenter. “Até agora todo mundo colocou palavras na boca do Temer. Agora é ele quem vai ter que falar e aí nós vamos ver que governo é esse. Existe a chance de termos decepções.”

4) Preços

Como seu bolso pode ganhar: ajustes já realizados e dólar mais baixo devem propiciar níveis de inflação menores

Como seu bolso pode perder: setores incentivados pelo governo, como o automotivo, podem não ter mais regalias e preços podem subir pontualmente

Depois de uma alta de 10,67% do IPCA em 2015, a expectativa para a inflação deste ano é de 7% segundo o Boletim Focus do Banco Central. Se em 2015 a inflação foi pressionada pela liberação de preços administrados e pela demanda ainda aquecida, com o menor avanço dos salários e aumento do desemprego, o consumo caiu e a inflação desacelerou.

Se o governo Temer for capaz de elevar a confiança dos investidores, trazendo mais dólares para o país, a inflação tende a se desacelerar ainda mais, na opinião de Zeina Latif, da XP. “O câmbio influencia a inflação tanto porque os preços de produtos importados ficam mais baixos, quanto porque os insumos usados na produção interna ficam mais baratos, reduzindo o preço final para os consumidores”, diz.

Por outro lado, Zeina afirma que Temer pode retirar incentivos antes concedidos a alguns setores, como o automotivo, gerando aumentos de preços pontuais, como poderia ocorrer no caso dos carros.

5) Desvinculação de Receitas da União (DRU)

Como seu bolso pode ganhar: governo tem mais liberdade para administrar o orçamento e pode gerir despesas de forma mais eficiente, incentivando a economia

Como seu bolso pode perder: setores como saúde e educação podem receber verbas menores, gerando piora na qualidade dos serviços públicos

Outro ponto importante que se espera do governo Temer é a ampliação da desvinculação de receitas. Em linhas gerais, a medida flexibiliza a aplicação mínima de recursos que devem ser destinados obrigatoriamente a setores como educação e saúde.

Zeina Latif defende que a medida deixa o orçamento menos engessado. “Se em um ano o governo destina mais recursos à saúde por causa da epidemia de zika, por exemplo, no ano seguinte ele não pode destinar um valor menor, mesmo que a crise se resolva. Com a desvinculação, ele não precisa fazer isso e pode direcionar verbas para outros setores, gerindo os gastos de forma mais eficiente.”

O outro viés da desvinculação, no entanto, é a possível redução dos investimentos nas áreas de educação e saúde. Zeina concorda que, dependendo de como a desvinculação for administrada, pode haver, sim, uma piora nos serviços oferecidos nesses setores e a população pode ser ainda mais forçada a arcar com despesas com saúde e educação do próprio bolso.

6) Flexibilização nas leis trabalhistas

Como seu bolso pode ganhar: regras mais flexíveis podem reduzir demissões

Como seu bolso pode perder: benefícios garantidos aos trabalhadores podem ser revertidos mais facilmente

Outro ponto previsto para o governo Temer, conforme ressalta o Ponte Para o Futuro, é a flexibilização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ernesto Lozardo, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas, diz que com a mudança os acordos firmados entre empresas e sindicatos podem passar a se sobrepor às regras da CLT, mas sem afetar direitos básicos como férias remuneradas e salário mínimo.

“Hoje o empresário é obrigado a reajustar salários pela inflação. Se o negócio entra em crise, a empresa não vê saída, senão demitir. A hora que a negociação entre empresas e sindicatos é ampliada, o empresário enfrenta melhor a crise e assegura o emprego”, diz Lozardo.

O professor defende, portanto, que a medida é positiva pois reajustes menores de salário são melhores do que demissões. Por outro lado, a flexibilização pode abrir brechas para que as empresas se sintam mais livres para não conceder ou restringir benefícios aos funcionários. E nada garante que uma empresa saudável também use a medida para arrochar condições de trabalho, sem realmente necessitar.

Outro ponto que pode ser prejudicial ao trabalhador é o projeto de terceirização aprovado na Câmara em 2015, que contou com o apoio de Temer, e permitirá que todo o trabalhador celetista seja terceirizado. Ainda que defensores argumentem que a terceirização gera mais empregos, ela também pode incentivar a troca de empregados antigos e diretamente contratados pela empresa por terceirizados.

7) Aposentadoria

Como seu bolso pode ganhar: corte de gastos na previdência melhora a situação fiscal, impulsionando a economia

Como seu bolso pode perder: você pode ser obrigado a se aposentar mais tarde e benefícios podem se menores com a desvinculação do salário mínimo

No texto do Uma Ponte para o Futuro, o PMDB também sinalizou que deve realizar reformas na Previdência Social. Essa é uma das principais medidas previstas para a gestão Temer. A reforma deve incluir “uma idade mínima [de aposentadoria] que não seja inferior a 65 anos para os homens e 60 anos para as mulheres”, como diz o documento.

Os economistas são unanimes em afirmar que a idade mínima for estipulada de fato, a mudança será feita de forma gradual para que pessoas que estavam prestes a se aposentar não tenham que postergar seus planos de supetão.

Outro ponto da reforma pode ser o fim da vinculação dos benefícios da previdência aos reajustes de salários mínimos, que hoje são atualizados pelo crescimento da economia nos dois últimos anos e pela inflação do ano anterior. A ideia é que as aposentadorias passem a ser ajustadas apelas pela inflação, reduzindo os gastos do governo.

Zeina Latif, da XP, afirma ainda que podem ocorrer alterações nos benefícios concedidos a pensionistas, que recebem os benefícios da Previdência por morte do cônjuge ou filho, não por contribuição. “A filha de um militar, por exemplo, pode não ter mais direito à pensão. Ela vai reclamar, mas a sociedade toda ganha.”

O consultor financeiro Paulo Bittencourt acredita, no entanto, que Temer pode não ter tempo para efetivar propostas mais complexas, como é o caso da Previdência. “A eleição municipal em 2016 também vai atrapalhar, pois o Congresso não vai querer discutir agora pontos impopulares. Isso afeta os investidores, que ainda não poderão ter uma visão de longo prazo.”

8) Bolsa

Como seu bolso pode ganhar: bolsa pode subir, de forma geral, com destaque para ações de estatais

Como seu bolso pode perder: ações de setores que dependem de maior retomada da economia, com o varejo, podem seguir em baixa

Há algum tempo o mercado tem mostrado que vê com bons olhos a saída de Dilma, já que a bolsa sobe diante de qualquer notícia contrária ao governo. Assim, segundo Álvaro Bandeira, do Modalmais, com a posse de Temer, a perspectiva é que a bolsa suba, mas não de forma tão acentuada. “O afastamento Dilma já está embutido nos preços. O que vai guiar o Ibovespa a partir de agora é a definição da nova equipe econômica de Temer”, diz.

Ainda que Bandeira não descarte a possibilidade de que Temer desaponte o mercado, ele diz que tudo indica que o novo governo deve agradar os investidores, levando a bolsa dos atuais 52.700 pontos para algo em torno de 56 mil pontos, ou até 60 mil – caso as expectativas sejam superadas – em um prazo de um ou dois meses.

André Perfeito, da Gradual, também acredita que a bolsa pode subir, mas não tanto. “As ações de estatais devem se beneficiar e avançar mais um pouco, mas não muito. A bolsa já subiu quase 40% em dólar neste ano, não há mais grandes chances de ganho”, diz Perfeito, que ressalta que ações ligadas ao desempenho real da economia, como do setor de varejo e de construção civil, devem seguir em baixa já que dependem de uma solução mais contundente da crise.

O consultor financeiro Paulo Bittencourt também ressalta que como Temer possui pouco tempo ele deverá agir com muita precisão, atacando os pontos mais importantes, como o déficit das contas públicas e o desemprego. “Pelo estilo do Temer ele não irá pular etapas. Portanto, vários setores não devem esperar resultados imediatos”, diz.

9) Impostos

Como seu bolso pode ganhar: aumento de impostos eleva arrecadação, situação fiscal melhora e economia é impulsionada

Como seu bolso pode perder: com o aumentos de preços e o pagamento de impostos mais altos

Lozardo, professor da FGV, acredita que o governo Temer deve seguir o que mencionou no documento Uma Ponte para o Futuro e recorrer ao aumento de impostos apenas em último caso. “Primeiro eles vão fazer um pente fino de todas as despesas. A última opção em termos de ajuste fiscal é o aumento tributário”, diz.

Ele afirma ainda que Temer deve incentivar acordos entre o Governo Federal e os estados e municípios que possuem dívidas com a União. “Esses acordos devem ser mais personalizados para que a negociação não seja feita com a mesma régua. Isso pode amenizar a situação de endividamento dos estados e municípios, contribuindo para que eles não elevem impostos”, diz o professor da FGV.

Contudo, caso o aumento de imposto ocorra, os economistas acreditam que ele deve vir por meio da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) ou da Cide, o imposto sobre os combustíveis.

Para Lozardo, a Cide seria a melhor opção, pois trata-se de um imposto que pode ser criado e retirado por meio de deliberação da presidência, sem passar pelo Congresso, como seria o caso da CPMF. Além disso, ao tributar a gasolina, existe um efeito positivo de redução na poluição das cidades e estímulo de produção de álcool, que pode gerar mais empregos.

Já a CPMF tem um efeito em cascata: cada vez que o dinheiro sai de uma mão para outra ela é cobrada. Assim, por mais que se avente que a alíquota deve ser de apenas 0,20%, como a indústria paga, o comerciante paga e o consumidor paga também, os preços finais ficam muito mais caros.

10) Abertura comercial

Como seu bolso pode ganhar: acesso a produtos importados aumenta e eles ficam mais baratos

Como seu bolso pode perder: abertura a outros países gera maior competitividade com empresas domésticas, que, sem condições de competir, podem falir e gerar desemprego

No Ponte para o Futuro, o PMDB também afirma que deve: “realizar a inserção plena da economia brasileira no comércio internacional, com maior abertura comercial e busca de acordos regionais de comércio em todas as áreas econômicas relevantes – Estados Unidos, União Europeia e Ásia”.

Caso os acordos se concretizem, seus efeitos podem ser distintos. “Para o consumidor é fantástico, já que ele tem acesso a produtos que não tinha antes. Qualquer pessoa que vai pra fora sente a diferença entre os produtos vendidos lá e os nossos”, diz Zeina Latif, da XP.

Por outro lado, ela pondera que o processo de abertura deve ser cauteloso, já que a entrada de produtos importados, que não são sofrem com o chamado custo Brasil, podem levar as empresas brasileiras a não suportar a concorrência. “Isso pode gerar um aumento do desemprego. Mas o progresso tem que vir, por mais que haja custos no curto prazo para alguns setores, no geral a abertura contribui para que o país seja mais competitivo.”
(Fonte: Exame)
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